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GMTM-Ep. 10 -- 1972 – Parte I: Quando o Leão rugiu

Atualizado: 22 de set. de 2023






Em dezembro de 1971, sentimos que finalmente estávamos prestes a começar a experimentar a alegria de cumprir a chamada de Deus para o campo missionário. Então, dentro de três meses, bem na iminência de partirmos para o Brasil, havia a possibilidade de que tudo pudesse desmoronar em um abrir e fechar de olhos. Estávamos a menos de um mês da nossa partida programada, quando parecia que o tapete estava prestes a ser tirado de baixo dos nossos pés.




 


Quando 1972 amanheceu, estávamos de volta ao Colorado depois de viajar 38000 km do Atlântico ao Pacífico, do Canadá ao México. Estávamos entusiasmados com este novo ano. Nosso pedido de visto missionário para o Brasil tinha acabado de ser aprovado. Aleluia! Agora tudo o que tínhamos de fazer era viajar para Rockford, IL, entregar os formulários finais no consulado em Chicago, embalar e enviar nossas coisas e reservar nosso voo! Que emocionante!


Mas a realidade raramente coincide com o que imaginamos. Os primeiros três meses de 1972 foram os mais difíceis de todos. Se você já empreendeu um projeto longo e difícil... remodelar sua casa, por exemplo... será que não sentiu que quanto mais perto você chegava ao fim da obra, mais longe parecia sua conclusão? Cansado da longa batalha, suas energias e recursos esgotados, você estava pronto para sentar-se e dizer: "Assim está bem. Chega por agora.” "Não vos canseis de fazer o bem", escreveu o apóstolo Paulo. Bem, esse conselho é mais fácil de dar do que de seguir.


A realidade raramente coincide com o que imaginamos. Os primeiros três meses de 1972 foram os mais difíceis de todos.

Quanto mais próximo um soldado chega à frente da batalha, mais quente é o fogo do inimigo. Agora que tivemos a aprovação do governo brasileiro, tudo parecia se voltar contra nós. Paulo escreveu em 1 Coríntios 16.8-9 que uma porta grande e eficaz se tinha aberto em Éfeso para ele, "mas muitos se opõem a mim". Embora não lutemos contra carne e sangue, é precisamente carne e sangue que Satanás usa em suas tentativas de frustrar os planos de Deus.


#1 – A Canção da Velha Égua Cinzenta

A primeira linha de ataque de Satanás concentra-se na nossa disposição natural para cuidar primeiro das coisas materiais e terrenas. Em inglês há uma canção infantil dos tempos idos quando cavalos foram meio de transporte e essenciais na agricultura. A lamentação vai assim, “A velha égua cinzenta já não é o que ela era muitos anos atrás”, e a nossa velha Kombi VW amarela, desgastada e cambada do seu tempo de serviço como burro de carga e nossa casa rolante, sofreu nesses últimos três meses. A transmissão e o motor tiveram de ser recondicionados. Várias vezes no inverno frio do norte de Illinois a carro não pegava. Uma vez um fio da bateria soltou-se e deixou-nos na estrada, e uma semana depois uma linha do carburador caiu e o motor sobreaqueceu. No dia seguinte, o silenciador caiu. Sem ele, o VW rugia como um carro da Fórmula I, mas a sua potência continuava muito despretensiosa.


Não sei quantas peças podem falhar em uma velha égua cinzenta, mas nossa velha Kombi amarela teve pelo menos 8 problemas diferentes em menos de três meses.


#2 – Finanças

Embora as ofertas em janeiro e março tenham sido superiores a US$ 600, melhor do que qualquer mês em 1971, o total de fevereiro foi de US$ 88,46, menor do que qualquer mês do ano anterior. Um pastor ligou para dizer que sua igreja não enviaria mais ofertas, devido a dificuldades financeiras. Pelos menos o apoio vinha de mais igrejas, geralmente apenas US$ 15 ou US$ 25. A nossa igreja que aprovou o nosso


O apoio não se mede pelo que é depositado na conta bancária.

envio ao campo missionário contribuiu US $ 18 em janeiro e US $ 18 em março, o que, a propósito, foi acima das últimas ofertas que eles nos deram em 1971: outubro (US $ 15) e novembro (US $ 10). Mas a contabilidade de Deus é melhor do que minha, e Ele sabe o quanto aquela igrejinha fez por nós entre 15 de janeiro e 22 de março. Eles nos hospedaram e nos alimentaram e socorreram nosso carro muitas vezes, deram uma bateria no frio do inverno e colocaram um silenciador na Kombi. O apoio não se mede pelo que é depositado na conta bancária. Eles guardaram nossas coisas até que pudéssemos empacotá-las para o envio, e serviram como base a partir da qual apresentamos nossa papelada ao consulado em Chicago. Prestaram apoio essencial nesta última etapa da corrida.


#3 - As nossas coisas

Durante um ano, viajamos em nossa Kombi carregada de roupas e as coisas de uso pessoal. Ao longo do caminho fomos juntando pequenas coisas: presentes de pessoas e livros que adquiri – livros para estudar grego e hebraico que ainda consulto regularmente. De vez em quando, enviávamos coisas pelo correio para serem armazenadas em Rockford com os outros bens domésticos que decidimos guardar


À medida que fomos pesquisando o custo do transporte e olhávamos para os cinco pães e dois peixes dos nossos recursos, tivemos de fazer algumas escolhas difíceis.

quando desistimos da nossa casa em Wisconsin. Quando chegamos a Rockford em meados de janeiro, nossa primeira tarefa foi embalar o que tínhamos armazenado em tambores de aço e fazer uma lista de bagagem. Mas à medida que fomos pesquisando o custo do transporte e olhávamos para os cinco pães e dois peixes dos nossos recursos, tivemos de fazer algumas escolhas difíceis. Os 6 tambores que tínhamos originalmente embalado foram reduzidos para dois tambores e dois baús, que, de acordo com Abbie, tinham mais livros do que outras coisas. Quem sou eu para dizer o contrário? Fomos eliminando os itens em etapas, e a lista de bagagem encolheu de acordo. Eu liguei para o consulado em Chicago várias vezes e fiz algumas viagens pessoalmente apenas para ter certeza de que todos os nossos documentos estavam em ordem. A lista de bagagens teve de ser dactilografada em formulários oficiais, fazendo parte da burocracia a que me refiro mais adiante.



No início de março, depois de embalarmos os tambores e baús pela enésima vez, estavam selados com o seu destino devidamente pintado com stêncil, prontos para entregar à companhia de navegação. Respirámos aliviados e levámos a carga à empresa de camionagem. Lamento, disse o homem. Cada peça tem de ser pesada primeiro. Fazem isso aqui? Perguntamos. Claro que não. Nosso suspiro de alívio se transformou em um gemido. Tivemos de levar tudo de volta para a casa do pastor e pesar as peças em balanças de casa de banho. Mais uma vez, um suspiro de alívio. Lá fomos nós de novo para a companhia de transporte. Lamento, disse o homem novamente. "Não temos ninguém aqui para descarregar a carga e colocá-la no cais." Mais uma vez, Abbie e eu gememos, desta vez literalmente, enquanto descarregávamos os tambores e baús e os colocamos no cais de embarque. Afinal, era esta uma das nossas regras cardeais no campo missionário: Tudo o que for preciso fazer, nós faremos.


Neste momento completamos uma etapa essencial a caminho da nossa partida marcada para 23 de março, mas ainda tínhamos de decidir o que poderíamos levar no avião, entre bagagem de mão e bagagem despachada. A companhia aérea brasileira VARIG disse que cada uma das crianças poderia ter 20 kg de bagagem despachada e, quando terminamos de fazer as malas, às 11h30 da noite no dia 22 de março, tínhamos 99 kg de bagagem despachada e 33 kg de bagagem de mão. No aeroporto no dia seguinte, fomos cobrados US $ 82 por termos 18 kgs de bagagem a mais.

Mas essa não é a história toda. Alguns irmãos aparentemente acharam que estávamos querendo levar coisas a mais. "Venda as coisas aqui, substitua-as lá", diziam.


Em efeito, estávamos comprometidos a 100%....partimos para o Brasil, deixando para trás apenas duas coisas que ainda podíamos afirmar que eram nossas

Os 6 tambores que tínhamos originalmente embalados ficaram reduzidos a 2, deixando-nos 4 tambores de coisas para alienar. Então, um “yard sale” foi organizada no quintal para o último fim de semana antes de deixarmos o país, o que nos rendeu US $ 81. Isso foi US $ 1 a menos do que teríamos de pagar quatro dias depois pelos 18 kgs de excesso de bagagem. O que não foi vendido, foi doado. Em efeito, estávamos comprometidos a 100%. Na quarta-feira seguinte, partimos para o Brasil, deixando para trás nos EUA apenas duas coisas que ainda podíamos afirmar que eram nossas: o vestido de noiva de Abbie e uma conta corrente no banco.


Há um ditado: "Duas mudanças de casa equivalem a um incêndio". Em verdade, em verdade vos digo: "Uma mudança entre continentes equivale a dois incêndios" e já fizemos isso quatro vezes, que são 8 incêndios, por aí. Digo, quatro vezes, porque a nossa mudança para Portugal, em 1976, implicou a mudança do Brasil e dos EUA ao mesmo tempo. A tensão de decidir entre o que levar e o que a gente sabe que nunca mais verá exige um alto preço mental e emocional. Esses 4 tambores incluíam muitos utensílios domésticos e roupa de cama que nunca poderíamos substituir no Brasil.


Só conseguimos ter uma linha telefônica em casa depois de estar 9 anos no campo missionário no Brasil e em Portugal.

Havia presentes de casamento que tínhamos recebido apenas 5 anos antes que foram praticamente, ou literalmente em alguns casos, dados. Abbie sempre se arrependeu de ter desistido de seu conjunto de várias peças de Corning Ware que ela nunca conseguiu repor. Não só o facto de o dinheiro da sua venda ser uma quantia relativamente irrisória, mas muitas dessas coisas não existiam noutros países. Quando havia eram muito mais caras. Quando nos mudámos para Portugal, 4 anos mais tarde, estávamos perfeitamente conscientes das desvantagens da filosofia "vender aqui, substituir lá". Tudo o que deixámos para trás demos por perdido para sempre. A expectativa de substituí-los não passava de uma ilusão.


Atualmente, o mundo não é o que era há 50 anos. Hoje discutimos os prós e contras de uma economia global, mas não contestamos o facto de que ela existe. Mesmo as pessoas que vivem nas aldeias mais remotas da África ou da Ásia têm telemóveis e internet. Só conseguimos ter uma linha telefônica em nossa casa depois de estar 9 anos no campo missionário no Brasil e em Portugal. Hoje, "Vender aqui, substituir lá" é capaz de fazer mais sentido.


Recebemos duas ofertas de US $ 1000 para a Kombi no mesmo dia. A primeira foi uma oferta firme, dependente de não conseguirmos uma oferta mais alta no dia seguinte. Nós simplesmente dissemos ao segundo comprador potencial que tínhamos uma oferta pendente e sua oferta de US $ 1000 não chegava. Ele voltou no dia seguinte e ofereceu US $ 1400, e esse dinheiro era o pé-de-meia que precisaríamos para sobreviver durante nossos primeiros meses no Brasil.


#4 – Burocracia

A burocracia parecia ser interminável. Tivemos de lidar com: passaportes, listas de bagagem, autorizações policiais, exames de saúde, formulários de visto e certificados de vacina. Apenas 5 dias antes de partirmos, recebi a carta do serviço militar a informar que eu estava autorizado a sair do país. A Guerra do Vietname ainda prosseguia, mas por estar matriculado na universidade quando cheguei à idade de me inscrever no sistema do serviço militar, nunca fui convocado. Quando acabei o curso, eu estava casado, e Raquel já nasceu, além de eu já estar consagrado como ministro religioso. Apesar de preencher muitos requisitos para estar isento do serviço militar, ainda tinha de ter autorização para sair do país. E essa autorização chegou 5 dias antes da nossa partida.


#5 – O Leão ruge

Todas essas coisas fazem parte da vida. Os carros, tal como os nossos corpos, envelhecem e dão problemas; nunca deixamos de ter de lidar com questões materiais, sejam dinheiro ou coisas, que acumulamos, armazenamos ou descartamos depois. O desafio é encontrar o equilíbrio certo. Formulários e requerimentos, licenças e aprovações constituem a razão de estar da administração pública, embora em alguns países a burocracia seja mais pesada e morosa do que em outros. Arranjar dinheiro quer para consertos de carros ou aprovações de vistos, para alimentos ou para combustível, a obtenção de rendimentos é uma preocupação constante.


O rugido de um leão é tão forte que pode ser ouvido até uma distância de 8 km

Mas todas essas coisas nada são comparadas com o inimigo mais formidável que enfrentámos nos últimos três meses antes de partirmos. Eu li que o rugido de um leão é tão forte que pode ser ouvido até uma distância de 8 km, mais longe do que o som de qualquer outro animal. O rugido do rei da selva mete o medo em todos os lados. Quão apropriadas são as palavras de Pedro em 1 Pedro 5.8: "Sede sóbrios; vigiai; porque o Diabo, vosso adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar." Naquelas últimas semanas, o inimigo rugiu, sua última tentativa de nos assustar e nos impedir de seguir o chamado de Deus. Sua arma: a mortal e eficaz Palavra Desanimadora.


Quando Moisés distribuiu territórios às tribos de Israel quando estavam prestes a entrar na Terra Prometida, duas tribos e meia pediram porções no lado oriental do rio Jordão. A resposta imediata de Moisés foi: "Por que, pois, desencorajais o coração dos filhos de Israel, para que não passem à terra que o Senhor lhes tem dado?" (Números 32.7) Ele lembrou-lhes o que tinha acontecido 40 anos antes, quando 10 dos espias voltaram e desencorajaram seus companheiros israelitas de tomar a terra, como Deus lhes ordenara que fizessem. O resultado foi a perda de uma geração inteira enquanto vagavam pelo deserto. Uma versão parafraseada da reação de Moisés seria: "Nem pensem nisso! Não se atrevam a repetir o erro de desencorajar o povo de seguir as ordens de Deus!" Quando os homens dessas tribos prometeram acompanhar seus irmãos na batalha e não voltar para casa além do Jordão até que todas as tribos estivessem estabelecidas em seus territórios, Moisés consentiu, mas deixou um sério aviso em Números 32.23: "E se não fizerdes assim, eis que pecastes contra o Senhor; e sabei que o vosso pecado vos há de achar”.


A arma que Satanás usa desde o primeiro momento tem sido sussurrar mentiras e criar dúvidas nas mentes humanas acerca do que Deus disse. As primeiras palavras de Satanás registadas na Bíblia foram ditas a Eva: "É assim que Deus disse: ‘Não comereis de toda a árvore do jardim'?" Sua tática funcionou. E continua a funcionar. A Palavra Desencorajadora é uma das armas mais eficazes do nosso inimigo, e a nossa defesa é o escudo da fé sobre o qual Paulo escreveu em Efésios 6.16: "Tomando sobretudo o escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do maligno."


A Palavra Desencorajadora é uma das armas mais eficazes do nosso inimigo

Agora que a porta do campo missionário estava aberta para nós, tivemos de pegar nosso escudo, porque os dardos vieram um atrás o outro em uma sucessão rápida.


Já no dia 2 de janeiro, depois de pregar uma mensagem de despedida na igreja no Colorado onde eu fui criado e onde aceitei a chamada de Deus para pregar aos 13 anos, uma irmã idosa que me conhecia desde meu nascimento chamou minha mãe de lado para falar sobre minhas suíças. Ela estava preocupada, achando que elas iriam ser um empecilho no meu ministério no Brasil.


Estou certo de que a irmã foi sincera, mas também estou certo de que a questão das suíças foi frívola. Satanás não tem escrúpulos em usar irmãos e irmãs sinceros para se concentrar a nossa atenção em questões frívolas, desde que isso dificulte a obra do Senhor. Os dardos seguintes não eram tão inócuos.


Quando chegamos a Rockford, em meados de janeiro, para começar a preparar tudo para sair para o campo missionário, o pastor me disse que tinha ouvido que eu tinha dito algo sobre um certo pregador a outro pregador. Os detalhes não sobreviveram até aos dias de hoje deste caso ele-disse-que-ele-ouviu-que-alguém-disse-que-eu-disse-algo-acerca-de-mais-alguém. Mas foi um lembrete do que Tiago 3 diz sobre a importância de domar a língua. Essa é uma lição positiva, mas foi um tijolo na parede que estava sendo construído para impedir nosso progresso.


Embora esse fosse um assunto importante, era um tijolo relativamente pequeno na parede, comparado com os próximos. No final de janeiro, menos de dois meses antes de partirmos, o pastor nos avisou que, se Abbie não mudasse, ela e o missionário Steve Montgomery, com quem planejávamos trabalhar, nunca se dariam bem. Ele disse ter recebido cartas "de todos os lados" sobre Abbie. Agora o inimigo aquece os dardos flamejantes e muda de alvo. Agora é Abbie. Isso também funciona. O pastor nunca me mostrou as cartas "de todos os lados", então eu não tinha como saber quem escreveu

O pastor disse ter recebido cartas "de todos os lados" sobre Abbie, e se ela não mudasse, ela e o missionário Steve Montgomery, com quem planejávamos trabalhar, nunca se dariam bem.

o quê, e não há defesa contra insinuações anônimas. Acho que a essência disso foi que

Abbie mandava na nossa família e eu não era o cabeça da casa, mas não fiz nenhuma tentativa de ripostar. Tal como fez Moisés quando o povo se queixou dele, entreguei tudo ao Senhor; o apóstolo Paulo também é um modelo de como lidar com a crítica, e eu tentei seguir o seu exemplo. Eu nunca saberei e não queria saber então, e certamente agora 50 anos depois no interessa saber, quantas cartas realmente havia. Mas é interessante que, no dia seguinte, depois que o pastor fez o comentário "de todos os lados", ele admitiu que "não tinha recebido 'muitas' cartas sobre Abbie". Minha conclusão: não havia muitas cartas, elas apenas vinham de lugares muito dispersos.


Então, em 20 de fevereiro, um mês antes de nossa partida, anotei em meu diário: "O pastor pregou sobre 'Obstáculos à adoração – Vontade própria e mundanidade' e incluiu ensinamentos sobre a ordem no casamento". Tendo em conta os seus recentes


Um dos membros sugeriu que a igreja retirasse sua recomendação de nós

comentários sobre Abbie e o que tinha sido dito sobre a minha falta de liderança no lar, o ponto que ele estava a tentar fazer não passou desapercebido. Era como se ele estivesse disparando um tiro de aviso desde o púlpito. Alguns outros devem ter entendido o mesmo. No dia seguinte, escrevi: "O pastor mencionou que um dos membros sugeriu que a igreja retirasse sua recomendação de nós porque eu não governava a minha casa".


Não estávamos recebendo muito apoio financeiro, mas se a igreja que nos enviava dissesse às igrejas irmãs que ela havia retirada a sua recomendação de nós, isso significaria o fim de todo o apoio e de qualquer esperança que tivéssemos de ir para o Brasil. Foi exatamente o que aconteceu 28 anos depois, em 2000, quando a igreja nos EUA que nos representava na época retirou sua recomendação de nós. Tínhamos estado na Madeira havia 24 anos e tínhamos estabelecido uma igreja local autónoma, mas em questão de dois meses perdemos todo o nosso sustento dos EUA. O Senhor, claro, já tinha um plano de backup com o qual nunca poderíamos ter sonhado, e continuámos trabalhando lá por mais 16 anos. Na verdade, acabamos melhor materialmente, por causa disso.


Em 1972, se o Senhor quisesse que estivéssemos no Brasil, nada poderia nos impedir de ir, mas a realidade era que não tínhamos praticamente nada, e o pouco que tínhamos estava a bordo de um navio navegando para o Brasil. O rugido do leão das Palavras Desencorajadoras era ensurdecedor agora! Apenas a um mês de partir para o campo e o inimigo ameaça tirar o tapete debaixo de nossos pés! Preocupado, falei com o pastor um ou dois dias depois, e ele disse que não conhecia ninguém que se opusesse a nós. Então, como é? O rugido do leão era ensurdecedor, mas ele não mordia? Eis uma lição para quem se dispõe para seguir o Senhor: não dê ouvidos ao que os outros dizem, quer seja bem, quer seja mal. O que importa é o que Deus diz.



Apenas a um mês de partir para o campo o inimigo ameaçou tirar o tapete debaixo de nossos pés! A realidade era que não tínhamos praticamente nada, e o pouco que tínhamos estava a bordo de um navio navegando para o Brasil.

Se Ele confirma que há algo que precisamos corrigir, então devemos tratar disso. Caso contrário, o louvor ou a crítica dos homens, que venha do povo de Deus ou dos homens do mundo, não têm qualquer consequência. Foi uma lição que tivemos de dominar antes de estarmos prontos para Deus nos apresentar a obra da nossa vida em Portugal 4 anos depois.


No último domingo de fevereiro, três semanas antes de nossa partida, o pastor pregou sobre "Desprezando as coisas de Deus", que não sei bem o que ele queria dizer com isso. De qualquer forma, Abbie e eu fomos diante da igreja e renovamos nosso compromisso com o Senhor e com a comissão que Ele nos havia dado. Toda a igreja, por mais pequena que ela fosse, veio apertar-nos as mãos em expressão do seu apoio. A assistência naquele dia também foi melhor do que o habitual. Se o leão estava presente naquele dia, ele ficou calado.


Acredito que aqueles que nos criticaram foram bem-intencionados, mas mesmo comentários bem-intencionados podem ser maldosos nas mãos do inimigo. Ele não tem escrúpulos em usar as boas intenções de amigos bem-intencionados, irmãos na fé ou familiares para lançar seus dardos de flamejantes. Isso é um lembrete de que ele pode até usar-nos a nós da mesma maneira. Os dardos de Palavras Desencorajadoras estão mergulhados em veneno. Como disse Moisés: "Saibamos que o nosso pecado nos há de achar".


Mais uma vez, o pastor nunca disse quem era aquele "membro" que sugeriu que a igreja retirasse sua recomendação de nós, mas estávamos ocupados demais para nos preocupar com isso. Tínhamos coisas para despachar e documentos para colocar em ordem.


Sei que por termos passado 17 meses sem uma casa própria, praticamente todos os momentos sendo vividos aos olhos do público, cada ação e reação, cada palavra e expressão foi submetida ao escrutínio dos outros. Os menores deslizes foram ampliados e mal interpretados pelos observadores e facilmente levaram a situações que podem ter magoado outras pessoas. Estes momentos também fazem parte do arsenal do inimigo que ele usa para impedir a obra de Deus.


A preocupação de Abbie em ver que estávamos levando o máximo que podíamos connosco para atender às nossas necessidades essenciais também foi usada contra ela. Foi acusada de ser "materialista". Em retrospetiva, eu deveria ter dito a seus detratores (sejam eles quem fossem) que lessem a descrição da "Mulher Virtuosa" no final de Provérbios no capítulo 31. Mesmo que você tenha lido esta passagem muitas vezes, eu encorajo você a lê-lo novamente. No próximo episódio, estaremos no Brasil e, ao ler meu diário de 1972 pela primeira vez em 51 anos para preparar notas para este podcast, percebi o quanto a vida de Abbie naqueles primeiros nove meses se


Abbie foi acusada de ser "materialista", e houve quem dissesse que ela não iria aguentar mais de dois anos no Brasil.

encaixava nessa descrição. Não vou dizer que a tomei como garantida, mas acabei de ganhar um apreço adicional pelo parceiro de vida que Deus me deu. OK, ela não fiou seu próprio fio ou se vestiu de seda como a mulher de Provérbios 31, mas ela preencheu muito bem o resto daquela descrição. Nesses últimos dois meses, foi-nos dito repetidamente e em diferentes maneiras que a nossa missão estava condenada e que Abbie nunca se daria bem no campo missionário. Houve quem dissesse que Abbie não iria aguentar mais de dois anos no Brasil. Mas a melhor maneira de calar nossos detratores não é discutindo com eles ou debatendo-os; só precisamos continuar a fazer fielmente o que Deus nos chamou para fazer.


Como Pedro escreveu em 1 Pedro 5.8-9, "Sede sóbrios; vigiai; porque o Diabo, vosso adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar. Ao qual resisti firmes na fé." Hebreus 11.33 fala sobre aqueles "que pela fé venceram reinos, praticaram a justiça, alcançaram promessas, (e) fecharam a boca dos leões..."

Nós, que vivemos hoje pela fé, ainda alcançamos promessas e fechamos a boca dos leões, especialmente os leões do inimigo e seu rugido de Palavras Desencorajadoras.


Às 23h30 do dia 22 de março de 1971, terminámos a embalagem final e caímos na cama. Escrevi no meu diário: "Não tive tempo hoje para pensar no amanhã. Foi esgotante, às vezes nos perguntávamos se algum dia conseguiríamos fazer tudo." Pouco depois do meio-dia do dia seguinte, estávamos no avião, iniciando nossa viagem de 25 horas de Chicago a São Paulo, passando por Nova York e Rio de Janeiro.Também estávamos na primeira etapa de nossa jornada de 44 anos de trabalho missionário no estrangeiro. O único rugido que ouvimos foi o dos motores a jato nas decolagens e aterragens em Chicago, NY, Rio de Janeiro e São Paulo. Mas voando à velocidade de cruzeiro a 33000 pés, não ouvimos rugido algum, apenas o ronronar constante dos motores dos aviões, assegurando-nos de que estávamos no lugar certo e indo na direção certa.

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