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Ep. 7 -- 1971 - Parte II: LAR E FAMÍLIA – Os sem-abrigo em nada nos superam

Ouça o podcast aqui.

Em 1968, os Beatles lançaram a canção, “Yellow Submarine” (Submarino Amarelo), e a única linha da letra que lembro é a frase, “Todos nós vivemos num submarino amarelo”. Penso que até hoje ninguém sabe ao certo o que eles queriam dizer com isso. Em 1971, tivemos a nossa versão, “Todos nós vivemos num Kombi amarelo.” Como família, estávamos muito chegados…fisicamente, pelo menos, e pela graça de Deus, ainda estávamos juntos no final do nosso ano de Lar Doce Lar na Estrada.


Vou ser franco. Nosso estilo de vida em 1971 nos qualificaria hoje para a inclusão na grande massa dos sem-abrigo. Não tínhamos residência permanente, o nosso alojamento era um veículo, e dependíamos da bondade dos outros, muitas vezes pessoas desconhecidas, para nos dar uma cama. Mas naquele tempo a descrição mais ajustada de nós teria sido que éramos uma família hippie modelo. Afinal, o que poderia ser mais hippie do que viver numa Kombi VW amarelo? Só faltava cobri-la com flores pintadas para completar a imagem. Instalámos varas para pendurar vestidos e uma cômoda para guardar a outra roupa. Quando saímos do Arkansas em janeiro, a mãe de Abbie nos deu uma cômoda. Tiramos o banco do meio da Kombi e colocamos o móvel contra a parede da van atrás do motorista e o afixámos ao chão com parafusos. Logo, no dia seguinte, quando saímos para a estrada, bastou virar a primeira curva para perceber que a nossa primeira paragem tinha de ser uma loja de ferragens para comprar ganchos para manter as quatro gavetas fechadas. Uma alternativa seria amarrar as crianças à frente da cômoda. Afinal, isso foi antes dos dias de cintos de segurança obrigatórios para passageiros ou assentos especiais para crianças entraram em vigor. Assim, as crianças vagavam pela Kombi, ou deitavam para cochilar enquanto viajávamos. Não era uma infração de trânsito naquela época não ter cintos de segurança nos bancos traseiros ou não ter crianças presas em assentos especiais o tempo todo. Mesmo que fosse, espero que o prazo de prescrição já tenha decorrido, após 52 anos.

A Kombi continha a totalidade de nossos pertences pessoais, exceto utensílios domésticos para a cozinha, por exemplo, que estavam armazenados em Rockford, Illinois, para serem eviados quando estivéssemos prontos para realmente partir para o Brasil. Em meados de abril visitámos o Mercado Francês em Nova Orleans, e quando voltámos ao carro, notámos que o gravador de cassetes estava numa posição diferente, mas foi apenas no motel à noite que percebemos que todos os vestidos de Abbie pendurados na vareta perto da janela lateral haviam sido roubados. Os ladrões abriram a janela à força e levaram quase toda a roupa dela. Em todas as igrejas onde parámos nas próximas semanas, as senhoras se mexeram e saíram para comprar tecido para Abbie, e emprestaram suas máquinas de costura para ela fazer vestidos; e outras saíram e compraram vestidos já feitas para ela. Não foi este o aviso de Jesus? "Não ajunteis tesouros na terra, onde os ladrões minam e roubam." Ele também disse: "Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida , pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. " (Mateus 6.25) Acho que Abbie poderia ser desculpada por pensar mais um pouco sobre o que ela iria vestir neste caso. Mas, como o Pai veste os lírios do campo, através de queridas irmãs cristãs, Ele também forneceu a Abbie muito para vestir.

Embora tivéssemos abrigo, seja no carro enquanto viajávamos, ou passando as noites em casas de estranhos, o fato era que éramos como os sem-abrigo, no sentido de não ter casa fixa. Ricardo, de 2 anos, parecia ser o mais afetado pela situação. Durante 10 semanas, de meados de junho até o final de agosto, enquanto eu tirava o curso Summer Institute of Linguistics oferecido pela Wycliff Translators na Universidade de Washington, membros de uma igreja em Tacoma nos ofereceram uma de suas cabanas turísticas onde pudemos ficar. No dia 16 de junho escrevi no diário: "Mudámo-nos para a cabana turística. Comprei comida, que chegou a $10, deixando-me com $3. É difícil acreditar que houve um tempo quando tivemos uma casa e uma vida para nós mesmos; a gente realmente não sabe o quanto que faz falta até ter uma novamente."

Foi uma viagem de 60 km em cada sentido para Seattle todos os dias. A hospedagem gratuita compensava as despesas da viagem e o desgaste do carro, mas isso também significava que eu não estava pregando nas igrejas. Paulo disse que o obreiro é digno do seu salário, e as igrejas, fiéis à Bíblia aparentemente interpretava isso a significar que o pregador só está a trabalhar quando está no púlpito. Quem não prega, não ganha. As ofertas nesses meses foram de US$ 181,50 para junho, US$ 205,67 para julho, US$ 134,75 para agosto e US$ 90 para setembro. Deus, que usou corvos para alimentar Elias, levantou alguns irmãos e irmãs fiéis que nos deram $20 quando não tínhamos nada, ou nos levaram ao supermercado para comprar $20 de mantimentos, ou que simplesmente trouxeram um saco de compras à nossa porta. Se um copo de água dado em nome de um profeta recebe a recompensa de um profeta, muito mais Deus recompensará aqueles que deram muito mais do que um copo de água. Nunca mais vimos essas pessoas generosas desde então, mas eu tomei nota do seus nomes e se algum deles está ouvindo ou lendo isso e você nos deu pão ou uma cama, ou mesmo apenas um dinheirinho para nos continuar o nosso caminho em 1971, saiba que ainda o que é mais importante, Deus registou seus nomes e se Ele os abençoou nesta vida, Ele fará muito mais no dia da vinda de Jesus. Podemos não nos lembrar de todos, ou ser capazes de recordar rostos, mas Deus não esquecerá nenhuma das suas bondades.


Cerca de um mês depois de termos saído de Tacoma, estávamos algures na Califórnia, quando Ricardo perguntou: "Quando vamos voltar para casa?" Em 10 semanas em uma pequena cabana turística, ele se instalou em uma casa que não estava saltando pelas estradas. Ele não estava dormindo em uma cama diferente a cada duas ou três noites enquanto ficávamos nas casas dos membros das igrejas. Ele precisava de estabilidade. Na manhã de domingo, 5 de dezembro de 1971, Ricardo disse algo que me levou a inserir a seguinte nota na margem da página daquele dia: "Ricardo precisa de uma 'casa'. Estou orando para que o Senhor cuide dele."

Essa frase evidencia uma questão-chave que batalhámos durante os nossos anos no campo missionário: os filhos. Anos mais tarde, quando Ricardo e Raquel eram adolescentes na ilha da Madeira, a incerteza da sua educação causou-me mais angústia do que qualquer outro problema que alguma vez enfrentei. Muitas vezes acordei no meio da noite a suar frio, clamando a Deus por uma resposta. Tudo o que eu podia fazer era dizer ao Senhor: "Não posso fazer nada. Estão nas Tuas mãos. Eu confio em Ti." E eu voltaria a dormir.

Isso faz parte da questão maior da FAMÍLIA. Por mais importantes que as crianças fossem para Abbie e para mim como pais, elas nunca foram nossa primeira prioridade. Não colocámos os nossos filhos em primeiro lugar; eu e Abbie colocamos mutuamente o outro em primeiro lugar (depois do Senhor, claro). A base da nossa família foi a relação entre mim e ela. Mesmo nos primeiros cinco anos do nosso casamento antes de irmos para o estrangeiro, nunca vivemos perto de nenhum dos nossos pais. A tarefa de criar os filhos sempre esteve sobre nós. Foi uma formação para a vida futura no campo missionário, onde éramos estrangeiros, cultural e linguisticamente, pelo menos até nos fundirmos com o meio envolvente. No Brasil, tivemos a família Montgomery ao lado por quase dois anos antes deles voltarem para os EUA. Depois ficámos sozinhos durante um ano e meio. Havia membros da igreja lá, claro, mas quando fomos para a Madeira, em 1976, não havia igreja, não havia cristãos com quem pudéssemos conviver. As agências missionárias geralmente fazem questão de não enviar apenas um missionário ou família para trabalhar desacompanhado, mas nós não éramos missionários normais. Durante toda a nossa vida, eu e Abbie sempre fomos nossos melhores amigos. Sempre fomos o apoio espiritual e emocional um do outro. Uma vez, uma senhora disse a Abbie: "Você e Ed são inseparáveis. Vocês estão sempre juntos." Por causa da maneira como ela disse isso, quase em tom de reclamação pelo facto que ela não conseguia ser a única objeto da minha atenção, Abbie tomou esse comentário como um elogio. Quando visitamos a biblioteca da Igreja Inglesa na ilha em família, quando Joy tinha cerca de 2 anos e Raquel, a mais velha, cerca de 15, ouvimos um amigo britânico dizer a outros: "Eles não agem como pais e filhos. Eles se portam como amigos."

Não tenho estatísticas que justifiquem o que vou dizer a seguir. Baseio-me em quase 45 anos no campo missionário observando as carreiras de missionários de vários grupos denominacionais. A falta de apoio financeiro e de recursos não parecia ser a principal causa para os missionários deixarem o campo. Em comparação com o apoio que outros missionários receberam, nosso apoio foi pouco acima do nível de pobreza. É o Senhor que julgará cada um de Seus servos, mas sabíamos de famílias que ficaram um mandato, 3 ou 4 anos, ou 1 ano, ou em um caso, apenas 2 semanas no campo, e baseado no que sabíamos, os problemas eram interpessoais na família e não devido à falta de recursos financeiros. Tenho certeza que muitas vezes as preocupações com as crianças foram uma força motriz na decisão de deixar o campo. Quaisquer que sejam os pormenores de cada caso, estou certo de que as relações familiares se sobrepõem às considerações financeiras, tanto positiva como negativamente.

Foi só nos últimos anos no campo que tivemos um rendimento mais estável. Nunca tivemos muito dinheiro, mas tivemos o Senhor e tivemos um ao outro. Em 1971, não tínhamos casa, mas éramos uma família. As crianças eram uma fonte de conforto. Geralmente. Aqui está uma entrada em julho de 1971, quando estávamos morando na cabana turística. Eu escrevi:

"Abbie estava limpando a casa e caiu sobre o aspirador e machucou o joelho. Ricardo (2) veio me dizer que a mamãe estava chorando, mas quando eu não fiz nada, ele voltou. Raquel (3) então acrescentou suas palavras de conforto e encorajamento: "Bem, ela não vai morrer disso".

Como família, Abbie e eu sempre procuramos apresentar uma frente unida no trato com as crianças. Não havia hipótese deles meter um de nós contra o outro. E essa frente unida estendeu-se ao nosso trabalho missionário. Eu e ela sempre fomos uma equipa, e ainda somos. Deus nos uniu porque cada um de nós tem certos dons. Eu sou inteligente o suficiente para saber que Abbie é mais inteligente do que eu em certas áreas. Não só mais inteligente, mas ela está espiritualmente em sintonia com Deus em maneiras que eu talvez não esteja. Isso era verdade antes de irmos para o Brasil. Foi assim no Brasil. Foi assim em Portugal. Ainda é verdade.

As 24.000 km de contato muito próximo no banco da frente de uma Kombi, e sempre ficar na casa de outras pessoas foi um verdadeiro teste para o nosso relacionamento. No final de abril, e depois de apenas 8.000 km , escrevi: "Abbie diz que nem sempre tenho sido doce ultimamente". Viver todos os dias sujeitos aos horários dos outros prejudicou a nossa relação. No início de junho, observei simplesmente no diário: "Mais um dia sem termos tempo juntos". Estes são vislumbres do que seria um aspeto fundamental de nosso futuro serviço missionário.

E por mais fundamental que fosse a família, ainda tínhamos de pagar as contas e arcar com as despesas. 1971 foi um período de formação de que precisávamos para tomar decisões financeiras nos anos seguintes. Em janeiro, os crocodilos foram incluídos na discussão sobre uma decisão financeira fundamental; em setembro, nossas finanças estavam dependentes de pepinos. Ao longo dos anos, o pêndulo da nossa situação financeira oscilou de um extremo ao outro, diferenças tão grandes como as entre crocodilos e pepinos.

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